CÉLULASTRONCO: ESCLARECENDO
E DISCUTINDO A POLÊMICA
Dr. Flávio Augusto Naoum
Imaginem o nosso corpo como uma grande árvore,
onde os galhos seriam os vários tecidos do corpo
e cada folha, uma célula. Pois bem, toda essa variedade
de tecidos (galhos) e células (folhas) devem se originar
de um único tronco comum, as células tronco.
Deste modo podemos definir célula tronco como uma
célula imatura que ao se dividir, pode gerar uma
célula igual à ela (capacidade de auto-renovação)
ou gerar uma célula madura de qualquer tecido do
organismo (capacidade de diferenciação).
Para fins de tratamento e pesquisa, as células tronco
são divididas em adultas ou embrionárias.
As adultas já são bem conhecidas pela medicina
pois são os tipos de células usadas para realização
de transplante de medula óssea. Atualmente já
se sabe da existência de células tronco adultas
não só na medula óssea, mas também
na circulação sanguínea, nas células
de cordão umbilical (que também são
caracterizadas como adultas), fígado, polpa dentária,
entre outros. O problema das células tronco adultas
é que, aparentemente, elas não conseguem se
diferenciar em todos os tecidos do corpo. Assim, no transplante
de medula óssea, as células tronco retiradas
da medula óssea dão origem, basicamente, às
células maduras do sangue.
Recentemente, algumas pesquisas vêm demonstrando que,
em certas situações, as células tronco
da medula óssea também podem se diferenciar
em outros tecidos além do sangue, como, por exemplo,
músculo cardíaco. Esta é a razão
de se retirar células tronco da medula óssea
do paciente e utilizá-las para tratamento de infarto
agudo do miocárdio ou insuficiência cardíaca.
Na verdade, a grande esperança da medicina são
a células tronco embrionárias. Estas células
têm a capacidade de formar todos os tecidos do corpo
humano, porém são encontradas apenas no embrião
humano com poucos dias de vida (fase de blastocisto). É
aí que mora a polêmica, pois para se utilizar
células tronco embrionárias para fins de pesquisa
o embrião precisaria ser destruído, o que
para algumas pessoas seria considerado interrupção
da vida. Mas é importante lembrar que nessa fase,
o que chamamos de embrião é um conjunto de
células imaturas menores que o ponto final desta
frase, que não formaram sequer um tecido ou um órgão,
não tem funcionamento independente, não sentem
nada e ainda não estão implantadas no útero.
A pesquisa com células tronco embrionárias
humanas envolve a aquisição de embriões
descartados em clínicas de fertilização,
os quais seriam inicialmente cultivados até a fase
de blastocisto, quando então as células da
camada interna deste (células tronco embrionárias)
seriam retiradas e estimuladas a manterem-se proliferando
ou diferenciarem-se em um determinado tecido. Outra possibilidade
atraente em relação à utilização
de células tronco embrionárias é o
processo de clonagem terapêutica. Este processo segue
a seguinte sequência: toma-se um óvulo doado
voluntariamente e retira-se o seu material genético.
A seguir insere-se o material genético da célula
uma pessoa no óvulo e, consequentemente, após
sucessivas divisões, têm-se um blastocisto
composto de várias células tronco embrionárias
com o material genético daquela pessoa. As células
da camada interna do blastocisto seriam então isoladas
e estimuladas em laboratório a produzir um determinado
tipo de tecido (músculo, neurônios, etc.).
Por exemplo, para tratar um paciente portador de doença
de Parkinson, doença relacionada ao sistema nervoso,
retiraríamos o material genético de uma célula
da pele desse mesmo paciente e o implantaríamos em
laboratório dentro de um óvulo doado e sem
núcleo, o qual, ao final de sucessivas divisões,
produziria células tronco embrionárias daquele
paciente e estas, por fim, seriam isoladas e estimuladas
a produzir neurônios saudáveis que serviriam
para tratar a doença de Parkinson do paciente.
Se fizéssemos o processo descrito acima, mas, ao
invés de cultivar as células em laboratório,
implantássemos o blastocisto formado no útero
de uma mulher, esta clonagem não seria mais terapêutica,
mas sim reprodutiva, devido ao potencial (muito baixo) de
que este embrião se desenvolva e origine um ser humano
com as mesmas características genéticas. A
clonagem reprodutiva em humanos nunca aconteceu e é
condenada não só pelos governos, mas também
por todos os cientistas. Em animais, este tipo de procedimento
não é novidade. Quem não se lembra
da ovelha Dolly? Este foi o primeiro mamífero clonado
no mundo que acabou por morrer precocemente, como que avisando
os cientistas sobre a necessidade de se estudar mais sobre
o assunto.
Como vimos, o tratamento com células tronco não
é simples e quase tudo o que foi feito até
o momento é de caráter experimental. Para
se ter uma idéia, a pesquisa com células tronco
embrionárias humanas tem apenas alguns anos e até
o momento os pesquisadores não conseguiram a ‘fórmula’
para fazer com que estas células cresçam em
laboratório de forma eficaz e duradoura na quantidade
necessária, nem sabem, tampouco, como faze-las se
diferenciar em determinado tecido humano. Isto sem levar
em consideração os esforços necessários
para driblar os altos riscos de rejeição quando
as células embrionárias de um indivíduo
forem transplantadas em outro.
Sou otimista e, como a maioria dos pesquisadores, acredito
que o tratamento com células tronco embrionárias
é o futuro e que tudo é uma questão
de tempo. Mas ao que tudo indica, muito tempo.
Dr. Flávio Augusto Naoum
Médico hematologista da Academia de Ciência
e Tecnologia de São José do Rio Preto
Tel: (17) 233-4490
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