INTERPRETAÇÃO LABORATORIAL
DO HEMOGRAMA
Prof. Dr. Paulo Cesar Naoum
Biomédico, Professor Titular pela UNESP
Diretor da Academia de Ciência e Tecnologia e do CDA
Laboratório de São José do Rio Preto
Introdução
O hemograma é o nome dado ao conjunto de avaliações
das células do sangue que, reunido aos dados clínicos,
permite conclusões diagnósticas e prognósticas
de grande número de patologias. A introdução
do hemograma na prática médica ocorreu em
1925 por meio de critérios estabelecidos pelo médico
e farmacêutico alemão V.Schilling.
Entre todos os exames laboratoriais atualmente solicitados
por médicos de todas as especialidades, o hemograma
é o mais requerido. Por essa razão reveste-se
de grande importância no conjunto de dados que devem
ser considerados para o diagnóstico médico,
não se admitindo erros ou conclusões duvidosas.
Análises que compõem o hemograma
O hemograma é composto por três determinações
básicas que incluem as avaliações dos
eritrócitos (ou série vermelha), dos leucócitos
(ou série branca) e das plaquetas (ou série
plaquetária).
A análise da série vermelha é constituída
pelas seguintes determinações básicas:
| 1 – Contagem de eritrócitos
(CE): |
106/mm3 |
| 2 – Dosagem da hemoglobina (Hb): |
g/dL |
| 3 – Hematócrito (Ht): |
% |
4 – Volume Corpuscular Médio
(VCM):
|
mm3
ou fm3 |
5 – Hemoglobina Corpuscular Média
(HCM):
|
pg |
6 – Concentração
da Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM):
|
g/dL |
Recentemente com a automatização das avaliações
das células do sangue, aliada a programas de informática,
obtém-se dados sobre diâmetro ou superfície
celular, histograma e gráficos de distribuição
de células. Especificamente para a série vermelha
a automatização fornece o índice RDW
que avalia a amplitude da superfície dos eritrócitos.
A série branca, por sua vez, é analisada por
meio dos seguintes índices:
| 1 – Contagem total
de leucócitos (CTL): |
103/mm3 |
| |
|
| 2 – Contagem diferencial
de leucócitos (CDL) |
|
| |
Neutrófilos (Bastonetes
e Segmentados): |
% e 103/mm3 |
| |
Eosinófilos: |
% e 103/mm3 |
| |
Basófilos: |
% e 103/mm3 |
| |
Linfócitos: |
% e 103/mm3 |
| |
Monócitos: |
% e 103/mm3 |
A contagem diferencial de cada leucócito é
emitida em % (ou valor relativo) e em 103/mm3 (ou valor
absoluto). O valor absoluto tem melhor expressão
diagnóstica em relação ao valor relativo.
As plaquetas são analisadas quantitativamente (CP:
103/mm3) e com uso de contadores automatizados é
possível obter o índice PDW (%) que fornece
o resultado da amplitude da superfície das plaquetas
quantificadas, bem como o MPV (fm3) que indica o volume
médio plaquetário.
Todas as avaliações apresentadas até
aqui são resultados quantitativos das três
séries: vermelha, branca e plaquetária. Entretanto
o hemograma deve abranger as análises qualitativas
dos eritrócitos, leucócitos e plaquetas que
consideram o tamanho e a forma celular, a coloração
e as inclusões citoplasmáticas e nucleares,
a presença de vacúolos, as atipias celulares,
etc. Essas observações são fundamentais
para auxiliar o diagnóstico clínico, p.ex.:
eritrócitos falcizados nos esfregaço sanguíneo
indicam relação com doença falciforme;
expressivo número de linfócitos atípicos
pode estar relacionado a viroses; plaquetas gigantes geralmente
estão associadas a determinadas síndromes,
etc.
Análises não automatizadas (manual)
e automatizadas
O hemograma pode ser realizado utilizando equipamentos
não automatizados, erroneamente denominados “metodologia
manual” e, também, por meio de equipamentos
automatizados com ampla variação tecnológica
eletrônica associada à informática.
Várias publicações científicas
comparando as metodologias não automatizada e automatizada
demonstram que os resultados obtidos não apresentam
diferenças estatisticamente significantes. Entretanto
a tendência natural é a substituição
gradual pelos equipamentos automatizados.
Na análise não automatizada são usados
três equipamentos: microscópio, centrífuga
ou microcentrífuga e espectrofotômetro ou fotocolorímetro.
Através do microscópio são feitas as
contagens de eritrócitos, leucócitos (total
e diferencial) e de plaquetas, usando câmara de Neubauer
e lâmina corada. A centrífuga ou microcentrífuga
fornece o valor do hematócrito, enquanto que o espectrofotômetro
ou fotocolorímetro permite a leitura da hemoglobina.
É fundamental que todos esses equipamentos sejam
de boa qualidade e sensibilidade tecnológica.
A análise automatizada tem facilitado o desempenho
da rotina laboratorial, especialmente quando há mais
de vinte hemogramas/dia. Os equipamentos disponíveis
permitem análises de 30 hemogramas/hora até
120 hemogramas/hora. Os aparelhos mais simples têm
por base o princípio da impedância, ou seja,
a formação de corrente elétrica entre
dois eletrodos; quando uma célula atravessa a corrente
elétrica é gerado um impulso elétrico
que é quantificado, conforme o diâmetro que
se dá especificamente para eritrócitos, leucócitos
ou plaquetas.
Os equipamentos automatizados avançados utilizam
diferentes canais com impedâncias específicas,
permitindo contagens de eritrócitos, leucócitos
e plaquetas ao mesmo tempo. Além disso podem ter
agregados a essa função básica os seguintes
recursos: citometria de fluxo, citoquímica e citologia
diferencial com capacidade de distinguir células
imaturas (reticulócitos e blastos).
De qualquer forma, a opção por um ou outro
tipo de análise automatizada e não automatizada
está relacionada ao número de exames de cada
laboratório. A qualidade dos resultados depende da
boa execução técnica, interpretação
dos valores, manutenção dos equipamentos e
constante padronização.
Recepção, coleta e encaminhamento
da amostra de sangue
Para realizar com competência técnica
o hemograma é preciso seguir uma linha de conduta
devidamente padronizada que se inicia com a recepção
do paciente. Essa fase inclui a própria receptividade,
oferecendo ao cliente um ambiente adequado com tratamento
profissional. A identificação do paciente
deve conter os seguintes dados: nome completo, sexo, idade
ou data de nascimento, endereço completo, telefone,
nome do médico que solicitou o hemograma e o número
do registro do paciente no seu laboratório. A coleta
deve ser precedida por algumas observações
do coletador: a) estado físico do paciente: normal,
ofegante, febril, excitado, desidratado, etc.; b) perguntar
se está usando medicamentos. As informações
pertinentes devem ser anotadas no prontuário do paciente.
A obtenção da amostra de sangue deve ser realizada
com o paciente descansado, bem acomodado (deitado ou sentado),
com o garrote suficientemente ajustado evitando seu uso
prolongado. Obedecer criteriosamente a relação
entre o volume de sangue coletado e a concentração
de anticoagulante para evitar a hemodiluição
ou a hemoconcentração. O anticoagulante recomendado
é o EDTA com sal potássio (EDTA-K2) na concentração
final de 1,5 a 2,2mg/ml de sangue.
Após a coleta, o tubo contendo o sangue, deve ser
homogeneizado lentamente por inversão no mínimo
por cinco vezes e, a seguir, retirar pequena alíquota
para fazer o esfregaço sanguíneo. O tubo com
o sangue, esfregaço e prontuário devem ser
encaminhados juntos para a análise no período
máximo de 4 horas (muitos neutrófilos têm
vida média de 4 horas). Após as análises
o profissional de laboratório tem o dever de conferir
os resultados, inter-relacionando-os e confrontando-os com
idade, sexo, uso de medicamentos e com o estado físico
do paciente (quando alterado) anotado no prontuário.
A análise do esfregaço
O esfregaço sanguíneo bem feito é
composto por três partes: espessa, medial e fina.
A coloração é efetuada com corantes
que tem em sua composição o azul de metileno,
a eosina e o metanol. Há vários tipos de métodos:
Leishman, Giemsa, May-Grunwald, Wright, panótico,
etc. Alguns desses métodos necessitam de tampão
com pH 7.0 e de baixa molaridade (água tamponada).
A melhor análise se consegue na porção
média do esfregaço, enquanto que na porção
fina os eritrócitos e leucócitos aparecem
geralmente com deformações artefatuais. Ao
percorrer o esfregaço é necessário
obedecer um padrão de deslizamento transversal e
longitudinal, contemplando o corpo do esfregaço.
As morfologias de eritrócitos, leucócitos
e plaquetas devem ser mentalizadas na seguinte seqüência
de considerações: a) tamanho; b) forma; c)
coloração celular; d) inclusões, conforme
mostra a tabela 1.
Tabela 1: Resumo das principais características
de alterações das três séries
celulares do sangue.
| |
Eritrócitos |
Leucócitos |
Plaquetas |
| Tamanho |
Micro/Macro/Megalócitos
|
---------- |
Macro/Gigantes |
| Forma |
Poiquilócitos (vários tipos)
|
Atipias, Pelger |
Agranular |
| Coloração celular |
Hipo/Hipercromia, Policromasia |
Basofilias |
Cinzenta |
| Inclusões |
Pontilhados, Howell-Jolly, Plasmódios,
etc
|
Tóxicas, Dohle, etc |
---------- |
As observações dessas alterações
devem ser descritas com critério, ou seja, é
comum observar um ou dois linfócitos atípicos
em quase todas as pessoas. Da mesma forma é possível
visualizar alguns eritrócitos hipocrômicos
com o eritrograma normal. Esses exemplos mostram alterações
de pouca relevância e não devem ser descritos.
Somente se descreve quando essas observações
são constantes em vários campos microscópicos,
por exemplo: atualmente se destaca a presença de
linfócitos atípicos quando seu número
é superior a 5% dos leucócitos contados. De
forma geral aconselha-se o uso das seguintes palavras: leve
ou discreta, moderada e acentuada (ex.: acentuadas anisocitose,
poiquilocitose e hipocromia eritrocitária). Evitar
o uso de cruzes (+) pois o significado pode estigmatizar
sua relação com a gravidade da doença,
preocupando o paciente inadequadamente.
Terminologia hematológica
A terminologia deve ser padronizada, obedecendo
a critérios internacionais. Sua importância
é simples de ser explicada por meio do entendimento
do seu significado por qualquer profissional de saúde,
de qualquer cidade, estado, região ou país.
Assim convencionou-se por usar prefixos e sufixos do grego
e do latim, conforme mostra a tabela 2.
Tabela 2: Prefixos e Sufixos comuns do Grego e
Latim usados no vocabulário hematológico.
| Prefixos |
Significados |
a - / na -
|
falta, sem, ausente, diminuído |
aniso -
|
desigual |
cito -
|
célula |
dis -
|
anormal, ruim |
eritro -
|
vermelho |
hemo - / hemato -
|
pertinente a sangue |
hipo -
|
abaixo, deficiente |
hiper -
|
acima, aumentado |
iso -
|
igual |
leuco -
|
branco |
macro -
|
grande |
mega -
|
muito grande, gigante |
meta -
|
mudança |
micro -
|
pequeno |
mielo -
|
da medula |
pan -
|
todos, global |
poiquilo -
|
variado, irregular |
poli -
|
muitos |
esquiso -
|
partido, desintegrado |
trombo -
|
coágulo |
- cito
|
célula |
- emia
|
sangue |
- fílico
|
atraído, afinidade para |
- ite
|
inflamação |
- lise
|
destruição |
- oma
|
tumor, inchaço |
- opatia
|
doença |
- ose
|
aumento anormal, doença |
- penia
|
deficiência |
- poiese
|
formação com desenvolvimento |
- poietina
|
produção estimulada |
Análise da série vermelha
A análise da série vermelha contempla
a quantificação de eritrócitos, hematócrito,
dosagem de hemoglobina e índices hematimétricos
(VCM, HCM, CHCM, RDW), bem como o exame microscópico
da morfologia eritrocitária. Esses dois conjuntos
de análises fornecem subsídios para o diagnóstico
das principais causas de anemias. Para a exposição
desse assunto e para facilitar o entendimento dos leitores,
podemos considerar inicialmente a quantificação
dos eritrócitos – que dará subsídios
para a “classificação laboratorial das
anemias” e, a seguir, a análise morfológica
dos eritrócitos que auxilia na “classificação
das causas e dos tipos de anemias”. Define-se por
anemia quando o eritrograma apresenta a concentração
da dosagem de hemoglobina menor que o valor padrão
para a idade, ou para homens e mulheres adultos (tabela
3).
A análise quantitativa dos eritrócitos e que
permite a classificação laboratorial das anemias
se suporta nos valores dos índices hematimétricos
de VCM e HCM, conforme mostra a tabela 3.
Tabela 3: Valores mínimos e máximos
dos valores eritrocitários, conforme a faixa etária
e sexos masculino e feminino em adultos obtidos na região
de São José do Rio Preto, SP.
| Eritrograma |
RN* |
1 a 11 meses |
1 a 2 anos |
3 a 10 anos |
10 a 15 anos |
Adulto masc** |
Adulto fem** |
| Eritrócitos |
5.2 |
4.0 – 4.9 |
4.0 – 5.1 |
4.0 – 5.1 |
4.0 – 5.1 |
4.5 – 6.1 |
4.0 – 5.4 |
Hemoglobina
|
17.0 |
10.3 – 12.7 |
10.6 – 13.0 |
11.5 – 14.5 |
11.5 – 14.5 |
12.8 – 14.5 |
11.3 – 16.3 |
Hematócrito
|
52.0
|
33 – 41
|
33 – 41
|
34 – 42
|
34 – 42
|
40 – 54
|
36 – 48 |
HCM
|
27 – 31
|
25 – 29
|
25 – 29
|
26 – 29
|
26 – 29
|
27 – 29
|
27 – 29 |
VCM
|
80 –100
|
75 – 90
|
75 – 90
|
77 – 90
|
77 – 90
|
77 – 92
|
77 – 92 |
CHCM
|
30 – 35
|
30 – 35
|
30 – 35
|
30 – 35
|
30 – 35
|
30 – 35
|
30 – 35 |
RDW
|
10 – 15
|
10 – 15
|
10 – 15
|
10 – 15
|
10 – 15
|
10 – 15
|
10 – 15 |
* Valores médios em RN até 15 dias de vida.
** O termo adulto nesse caso é considerado quando
os níveis hormonais estão bem estabelecidos
e a massa corporal bem definida, geralmente acima dos 15
anos.
Quando um paciente com anemia (Hb abaixo do valor padrão)
se apresenta com o VCM e HCM diminuídos, denomina-se
anemia microcítica e hipocrômica; se o VCM
e HCM estiverem dentro dos valores da faixa de normalidade,
a anemia é normocítica e normocrômica;
e se o VCM estiver elevado (não há HCM elevado!)
a anemia é do tipo macrocítica.
Para exemplificar essas três situações,
consideremos os exemplos hipotéticos de 3 diferentes
mulheres adultas, comparando seus resultados com os da tabela
3.
| |
Caso 1 |
Caso 2 |
Caso 3 |
| Eritrócitos (x106) |
3,8 |
3,3 |
2,8 |
| Hemoglobina (g/dL) |
8,5 |
9,0 |
8,3 |
| Hematócrito (%) |
27 |
30 |
27 |
| HCM (pg) |
22 |
27 |
28 |
| VCM (fL) |
71 |
90 |
96 |
| CHCM (g/dL) |
31 |
30 |
30 |
| RDW (%) |
16 |
17 |
16 |
O caso 1 é típico de anemia
microcítica (VCM diminuído) e hipocrômica
(HCM diminuído); o caso 2 é
característico de anemia normocítica (VCM
normal) e normocrômica (HCM normal); o caso
3 é indicativo de anemia macrocítica
(VCM aumentado).
Se formos analisar a morfologia eritrocitária desses
três casos é muito possível que no caso
1 sejam visualizados eritrócitos microcíticos
e hipocrômicos; no caso 2 podem ser observados eritrócitos
microcíticos, macrocíticos e normocrômicos
(que na média dos valores resultem em VCM normal)
e anisocromia com eritrócitos normocrômicos
e hipocrômicos (que na média dos valores resultem
em HCM normal), no caso 3 a anemia é do tipo macrocítica
e normocrômica com predomínio de macrócitos
normocrômicos.
O índice CHCM nem sempre está diminuído
nas anemias, entretanto observa-se sua diminuição
em casos graves de hipocromia (ex.: talassemia beta maior,
anemia ferropriva grave). Por outro lado, a elevação
do CHCM quase sempre está relacionada com elevado
número de eritrócitos esferócitos (ex.:
esferocitose hereditária). O índice RDW tem
importância quando está aumentado acima do
padrão e é indicativo de anisocitose.
A avaliação qualitativa dos eritrócitos
complementa o eritrograma e sua análise obedece a
uma seqüência analítica: tamanho (anisocitose),
forma (poiquilocitose), coloração (hipocromia
e hipercromia) e inclusões.
Apresento a seguir a sinopse das principais, mas não
todas, alterações morfológicas dos
eritrócitos, relacionando-as com as principais causas
de anemias (tabela 4).
Tabela 4: Alterações morfológicas
de eritrócitos relacionadas às principais
causas de anemias.
|
Termo geral |
Termo específico |
Principais ocorrências |
|
Anisocitose
(Tamanho) |
Micrócitos
Macrócitos |
Ferropenia, Talassemias
Def. B12 e Folatos |
|
Poiquilocitose
(Forma) |
Células em alvo
Leptócitos
Dacriócitos
Esquisócitos
Esferócitos
Eliptócitos
Falciforme
Estomatócitos
Equinócitos
Acantócitos |
Ferropenia, talassemias
Ferropenia
Talassemias
Talassemias
Esferocitoses, anemias hemolíticas
Eliptocitose
Doença falciforme
Estomatocitose, Hepatopatias
Hepatopatias, artefato (*)
Hepatopatias, artefato (*) |
|
Coloração |
Hipocrômica
Hipercromia |
Ferropenia, Talassemias
Esferócitos |
|
Inclusões |
Pontilhados basófilos
Howell-Jolly
Anel de Cabot
Parasitas |
Talassemias, Intoxicação Pb (**)
Anemias hemolíticas
Anemia grave
Malária |
(*) Tampão com pH ácido; sangue coletado
> 24 horas
(**) Pb: chumbo
Análise da série branca
Essa análise é também conhecida
por leucograma e avalia as contagens total e diferencial
(valores relativo e absoluto) dos leucócitos, bem
como a morfologia dos neutrófilos, linfócitos
e monócitos, principalmente.
A avaliação quantitativa, que incluem as contagens
total e diferencial é baseada em valores padrões
estabelecidos por faixas etárias conforme mostra
a tabela 5.
Tabela 5 – Valores mínimos e máximos
das contagens absoluta e diferencial de leucócitos
obtidos na região de São José do Rio
Preto, SP.
|
Leucócitos |
1 a 3 anos |
4 a 14 anos |
Acima de 14 anos |
|
|
% |
absoluta** |
|
|
|
|
|
Leucócitos
Totais |
---- |
5.0 – 15.0 |
---- |
4.5 – 11,0 |
----
|
4.0 – 11.0 |
|
N. Bastonete * |
2 – 8 |
0.1 – 0.6 |
2 – 4 |
0.1 – 0,4 |
2 – 4 |
0.1 – 0.4 |
|
N. Segmentado * |
20 – 40 |
2.0 – 6.0 |
35 – 55 |
2.0 – 6.0 |
36 – 66 |
2.0 – 7.5 |
|
Eosinófilo |
4 – 10 |
0.2 – 1.5 |
4 – 8 |
0.3 – 1.0 |
2 – 4 |
0.1 – 0.4 |
|
Basófilo |
0 – 1 |
0.0 – 0.1 |
0 – 1 |
0.0 – 0.1 |
0 – 1 |
0.0 – 0.1 |
|
Linfócito |
40 – 60 |
2.0 – 8.0 |
30 – 55 |
1.5 – 6.5 |
25 – 45 |
1.5 – 4.0 |
|
Monócito |
4 – 10 |
0.2 – 1.5 |
4 – 10 |
0.2 – 1.0 |
2 – 10 |
0.2 – 0.8 |
* N: Neutrófilo
**: x 109/L ou x 1000/mm3
A primeira análise do leucograma se suporta na verificação
da contagem total dos leucócitos: quando os mesmos
estão acima do valor padrão para a idade denomina-se
por leucocitose, e quando abaixo por leucopenia. Especialmente
a leucocitose deve ser adjetivada em discreta (ou leve),
moderada e acentuada, de acordo com os valores do leucograma.
Exemplo: criança com 7 anos de idade (ver tabela
5) com leucócitos entre 11 e 15 x 103/mm3 é
qualificada de leucocitose discreta ou leve; entre 15 e
20 x 103/mm3 por leucocitose moderada; acima de 20 x 103/mm3
por leucocitose acentuada. As leucocitoses ocorrem basicamente
em três situações: leucocitose fisiológica
– geralmente de grau leve é comum em gestantes,
RN, lactantes, após exercícios físicos
e em pessoas com febre; leucocitose reativa – estão
notadamente relacionadas com o aumento de neutrófilos
e se devem às infecções bacterianas,
inflamações, necrose tecidual e doenças
metabólicas; leucocitose patológica –
estão relacionadas a doenças mieloproliferativas
(leucemias mielóides, policitemia vera, mieloesclerose)
e linfoproliferativas (leucemias linfóides e alguns
linfomas). Na vigência de leucocitoses é fundamental
a cuidadosa análise da morfologia leucocitária,
distinguindo para os neutrófilos as seguintes verificações:
presença de neutrófilos jovens (bastões,
metamielócitos, mielócitos e promielócitos),
granulações tóxicas, vacúolos
citoplasmáticos e inclusões anormais (ex.:
Chediack-Higashi, May-Hegglin, Alder, etc.). Nas leucocitoses
patológicas, especialmente aquelas que derivam de
leucemias agudas, é comum observar leucócitos
jovens e com nucléolos – os blastos. Em leucemias
mielóides agudas a presença de blastos (ou
mieloblastos) é muito freqüente, da mesma forma
que os blastos (ou linfoblastos) nas leucemias linfóides
agudas. Há necessidade de se ter muita segurança
para liberar no laudo a presença de células
blásticas. Para evitar constrangimentos desnecessários,
sugere-se que na vigência de leucocitoses e presença
de células blásticas ou jovens se deva fazer
um contato com o médico do paciente antes da liberação
do laudo.
As infecções virais, por sua vez, induzem
a linfocitose relativa, com ou sem leucocitose e, às
vezes, até leucopenias. Nesses casos a presença
de linfócitos atípicos que se caracterizam
pelas morfologias alteradas nas formas do núcleo
e da célula, na relação núcleo/citoplasmática
e intensa basofilia do citoplasma, constantemente ultrapassa
a 5% dos linfócitos contados. Muitas vezes as infecções
virais sensibilizam as células apresentadoras de
antígenos as quais são caracterizadas pela
monocitose e linfocitose conjuntamente, como ocorrem na
mononucleose infecciosa.
A leucopenia muitas vezes se deve à diminuição
dos neutrófilos e pode ser de causas fisiológica
ou induzida por drogas e poluentes, reativa e processos
imunológicos (tabela 6).
Tabela 6: Algumas causas de leucopenia por neutropenia.
| Tipos |
Causa |
| Fisiológica |
Comum em africanos e descendentes, ou
familiar. |
| Drogas |
Anti-inflamatórios (ex.: butazonas) Anti-bacterianos
(ex.: cloranfenicol) Anti-convulsivantes, anti-depressivos
|
| Poluentes |
Derivados do benzeno, fertilizantes,
agro-tóxicos |
| Reativa |
Infecções bacterianas p/ gram negativos,
tifo, brucelose, tuberculose miliar |
| Imunológica |
Neutropenia auto-imune, neutropenia neonatal
aloimune |
Muitas vezes o leucograma apresenta situações
de eosinofilia. No Brasil, as eosinofilias são causadas
por infestações parasitárias (ascaris,
estrongilóides e schistosomas, principalmente). Há
também as eosinofilias familiares (benignas) e as
síndromes hipereosinofílica – essas
necessitam de cuidados médicos adequados. Outras
causas de eosinofilias são: alergia, câncer
com metástases, doença de Hodgkin, leucemia
mielóide crônica, eczema, psoríase,
pênfigo e dermatite.
Por todas essas razões e muitas outras que não
foram elencadas nessa apresentação, a análise
do leucograma deve ser criteriosamente elaborada. Para finalizar,
a tabela 7 apresenta as principais alterações
morfológicas dos leucócitos.
Tabela 7: Principais alterações morfológicas
em leucócitos.
Análise das plaquetas
As plaquetas são também produzidas
na medula óssea e derivam da fragmentação
do citoplasma dos megacariócitos. Tem forma discóide,
são anucleares e estão presentes no sangue
em quantidades variáveis entre 140 e 450 x 103/mm3.
Seu tempo de vida média é variável
entre nove e doze dias. A atuação fisiológica
das plaquetas é fundamental no processo inicial da
hemostasia, promovendo a agregação dessas
células e a adesividade delas com as células
endoteliais próximas às lesões. Durante
essas atividades hemostáticas, as plaquetas funcionam
como tampões e promovem o desencadeamento da coagulação
sanguínea. Por essas razões a contagem total
de plaquetas e a análise da sua morfologia são
muito importantes. Situações que causam plaquetopenias
(tabela 8) induzem ao sangramento. Por outro lado, pessoas
com número de plaquetas dentro dos valores padrões
mas com ausência de grânulos (ex.: plaquetas
cinzentas) tem sangramentos devido à dificuldade
da agregação plaquetária.
Tabela 8: Principais causas de plaquetopenia.
Por outro lado o aumento do número de plaquetas acima
de 450 x 103/mm3 é denominado de plaquetose. Plaquetoses
até 700 x 103/mm3 podem ocorrer notadamente na anemia
ferropriva, hemorragias agudas, inflamações
e infecções crônicas, anemias hemolíticas,
leucemias e policitemia vera. Entretanto há situações
em que a contagem de plaquetas é superior a 700 x
103/mm3 podendo chegar até 3.000 x 103/mm3, como
é o caso da trombocitemia essencial – doença
mieloproliferativa que desencadeia a formação
descontrolada das células precursoras das plaquetas,
os megacariócitos.
Interferências técnicas podem influenciar na
contagem de plaquetas, por exemplo: o excesso de anticoagulante
EDTA-K2 induz a formação de agrupamentos de
plaquetas causando pseudo-plaquetopenia na contagem automatizada;
a correção se faz contando as plaquetas no
esfregaço sanguíneo. Em pacientes com leucemias
cujos leucócitos se fragmentam, bem como na microesferocitose
– com os eritrócitos muito pequenos, podem
induzir a pseudo-plaquetose. Outra vez a análise
do esfregaço sanguíneo passa a ser fundamental
na contagem e correção do número de
plaquetas.
Considerações finais
Em laboratórios de atendimento público
(não hospitalizado) as alterações do
hemograma são bem menores quando comparadas com laboratórios
que atendem pacientes hospitalizados. A diferença
é que nos laboratórios de atendimento público
o profissional do laboratório não tem contato
direto com os médicos dos pacientes, enquanto que
nos laboratórios de hospitais esse contato é
quase permanente. Dessa forma, em situações
de anemias graves, leucocitoses ou leucopenias acentuadas,
de plaquetoses e plaquetopenias intensas, bem como presença
de células sanguíneas jovens (blastos), devem
ser comunicadas com os médicos dos pacientes. Essa
comunicação preferencialmente deve ser feita
pessoalmente (telefone) pelo responsável do laboratório,
na expectativa de confirmar os resultados com a suspeita
clínica do paciente.
Por fim, há necessidade que o profissional de laboratório
tenha à sua disposição bons atlas citológicos
de hematologia, com as principais alterações
celulares das três séries, e que a consulta
às informações científicas e
tecnológicas sejam constantes.
Referências bibliográficas
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