SOMOS TODOS ETERNOS
Paulo Cesar Naoum, biomédico, professor titular pela Unesp, diretor da Academia de Ciência e Tecnologia e ocupa a cadeira 33 da ARLC. Autor do livro Em nome do DNA, Livraria Médica Paulista, 2010.

 

O sonho de muitas pessoas é ser eterno. Ser eterno, através da alma, é possível, conforme apregoava Jesus Cristo há 2 mil anos. A eternidade, na linguagem figurativa de Cristo, significa no atual entendimento que patrimônios genéticos de uma pessoa estão presentes em seus filhos e entre seus parentes assemelhados, difundindo-se, portanto, de modo contínuo e por tempo indefinido. Neste contexto é possível substituir a exposição figurativa da alma pela da molécula de DNA. Como a dois mil anos não se conhecia o DNA, resgatou-se o conceito de alma como o elemento imortal proposto por Platão. Na sequência deste pensador grego, seu discípulo Aristótales apresentou o sentido metafísico da alma através das percepções que dão sentidos à vida, incluindo o pensamento, a inteligência, a harmonia, entre outros, como veremos adiante. Muito tempo depois, Santo Agostinho definiu a eternidade da alma em sua obra “Confissões” da seguinte forma: o homem, enquanto ser, partilha da eternidade, através de sua alma imortal num corpo suscetível à morte. Outros ilustres pensadores propuseram por séculos diversas teorias sobre a imortalidade da alma. Independente de suas estruturas ideológicas, muitos conceitos tidos como verdades indiscutíveis se perpetuaram até 1953, quando os pesquisadores da Universidade de Cambridge, Inglaterra, James Watson e Francis Crick, descreveram a estrutura básica da molécula de DNA. A partir desta descoberta o mundo passou a ter à disposição uma avalanche de informações, através das quais provou-se que as moléculas de DNA inseridas em genes são a essência biológica da vida e podem, realmente, promoverem contínuas transmissões de heranças genéticas por indefinidas gerações, fato que resulta na imortalidade de qualquer ser vivo, seja ele vírus, bactérias, animais ou vegetais. Sob o ponto de vista antropológico, quando se considera especificamente a cronologia do desenvolvimento humano, verifica-se que há 70 mil anos ocorreu algo formidável, qual seja a revolução cognitiva da nossa espécie. A partir daí desenvolveu-se a linguagem ficcional, o raciocínio e o pensamento. Neste encadeamento evolutivo o ser humano passou a ser considerado único e especial, obviamente por nós, que fazemos parte desta espécie. Enfim, considerando as informações importantes e necessárias para o presente artigo, foi possível concluir que somos todos eternos, ou melhor, biologicamente eternos, notadamente se modernizarmos os princípios aristotélicos a respeito da alma. Segundo Aristótales, a alma do ser humano é composta por três partes: 1) a alma vegetativa, que é o princípio que regula as atividades biológicas. Está presente em todos os seres vivos, plantas e animais, inclusive no homem. É responsável pelos instintos, impulsos, crescimento, nutrição e reprodução; 2) a alma sensitiva ou desiderativa, que está presente somente nos animais, capaz de coordenar conscientemente os movimentos corporais e é responsável pelas sensações e percepções das peculiaridades dos objetos; 3) a alma intelectiva ou pensante, que é exclusiva do ser humano, capaz de pensar discursivamente, elaborar teorias e pensar em explicações. É dela que deriva a capacidade de formular juízos sobre a realidade. Pinçando o resumo da teoria de Aristótales e transportando para as conclusões do Projeto Genoma Humano, as três partes da alma do ser humano estão contempladas nas ações dos quase 25 mil genes que coordenam todas as nossas funções e pensamentos, com destaques para longevidade, comportamento, apetite, obesidade, doenças, virtudes, maldades, inteligência, resistência física, etc. Por todas essas razões, é possível admitir que somos todos biologicamente eternos.

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