Por que as células com Hb S falcizam?

Eritrócitos com Hb S ocorrem em diferentes genótipos que podem ou não caracterizar os diversos tipos de doenças falciformes. Por exemplo, o heterozigoto falcêmico (traço falciforme) contém Hb A (normal) e Hb S e é representado geneticamente como portador assintomático de Hb AS. Portadores de Hb AS sempre tem maior concentração de Hb A em relação à Hb S, por exemplo: 60% de Hb A e 40% de Hb S. Nessas condições em que a concentração da Hb A é maior que da Hb S a falcização somente ocorre quando provocada por teste “in vitro”, como teste de falcização que induz a desoxigenação dos eritrócitos. Entretanto a falcização pode ocorrer “in vivo” quando a concentração da Hb S for superior à da Hb A, como ocorre nos genótipos das doenças falciformes: Hb SS, Hb SC, Hb SD, Hb SF, Hb S/talassemia beta e Hb S/talassemia alfa.

Qualquer que seja o processo da falcização (induzido “in vitro”, ou espontâneo “in vivo”) a deformação se deve à desoxigenação da Hb S (figura 11). Essa deformação morfológica, geralmente afilada longitudinalmente e que se parece com a forma de uma foice se deve ao ajuntamento de moléculas de Hb S desoxigenadas que se dispõem formando inúmeros polímeros num determinado sentido (figura 12). Essa disposição dos polímeros no interior do eritrócito força a célula a adquirir uma forma alongada, caracterizando a falcização. O processo da falcização pode ser resumido em três fases de modificação morfológica, conforme mostra a figura 13, em que há uma fase em que o eritrócito com Hb S oxigenada tem a forma discóide (a), quando inicia a desoxigenação da Hb S e célula deixa de ser discóide e gradualmente se alonga (b), nesta fase se o eritrócito receber oxigênio ele “desfalciza”; e finalmente os polímeros de Hb S se alongam longitudinalmente e o eritrócito adquire a forma de foice nesta fase a falcização se torna irreversível, ou seja, mesmo que haja oxigênio disponível às moléculas de Hb S estão estruturalmente comprometidas em agregados polimerizados que não captam o oxigênio.

Figura 11: Microscopia eletrônica de varredura de eritrócitos falcizados em comparação com outro discóide.

Figura 11: Microscopia eletrônica de varredura de eritrócitos falcizados em comparação com outro discóide.

 

Figura 12: Microscopia eletrônica plana de eritrócito falcizado onde é possível observar inúmeros polímeros de agregados moleculares de Hb S desoxigenada, dispostos longitudinalmente na célula afoiçada.

Figura 12: Microscopia eletrônica plana de eritrócito falcizado onde é possível observar inúmeros polímeros de agregados moleculares de Hb S desoxigenada, dispostos longitudinalmente na célula afoiçada.

Figura 13: Microscopia óptica de sangue com anemia falciforme (Hb SS). (a) eritrócito com Hb S oxigenada com a forma discóide; (b) duas situações que representam a fase inicial da falcização; (c) eritrócito falciforme irreversível.

Figura 13: Microscopia óptica de sangue com anemia falciforme (Hb SS). (a) eritrócito com Hb S oxigenada com a forma discóide; (b) duas situações que representam a fase inicial da falcização; (c) eritrócito falciforme irreversível.