{"id":4347,"date":"2017-08-14T11:46:23","date_gmt":"2017-08-14T11:46:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ciencianews.com.br\/?p=4347"},"modified":"2017-08-14T11:46:41","modified_gmt":"2017-08-14T11:46:41","slug":"blog-cientifico-14082017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/blog-cientifico-14082017\/","title":{"rendered":"Blog Cient\u00edfico &#8211; 14\/08\/2017"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;font-size: 20px;font-weight: bold;\">\nO HEMOGRAMA NAS INFEC\u00c7\u00d5ES\n<\/div>\n<div style=\"text-align: center;font-size: 17px;font-weight: bold;\">\nPaulo Cesar Naoum, biom\u00e9dico, professor titular pela UNESP e diretor da Academia de Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, SP, Brasil.\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;font-size: 13px;\">\n<p>A an\u00e1lise de um hemograma inclui a leitura das tr\u00eas s\u00e9ries celulares do sangue, quais sejam, os valores quantitativos dos eritr\u00f3citos, leuc\u00f3citos e plaquetas, de seus \u00edndices  e as observa\u00e7\u00f5es de suas morfologias. Al\u00e9m dessas informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas h\u00e1  influ\u00eancias relativas \u00e0s pessoas analisadas, com destaques para idades e situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas associadas. Especificamente para os processos infecciosos, as an\u00e1lises do hemograma est\u00e3o intimamente associadas \u00e0s suas causas, conforme os tr\u00eas  exemplos  selecionados  a seguir:<br \/>\n<\/p>\n<p><b>1) Infec\u00e7\u00f5es parasit\u00e1rias,<\/b> com destaque para os plasm\u00f3dios da mal\u00e1ria, quer sejam     P. vivax ou P. falciparum. As altera\u00e7\u00f5es mais evidentes no  hemograma e decisivas para o diagn\u00f3stico m\u00e9dico desses agentes patog\u00eanicos est\u00e3o restritas notadamente aos eritr\u00f3citos. Essas c\u00e9lulas s\u00e3o sumariamente induzidas \u00e0 morte precoce pelos parasitas que as atacam, resultando, consequentemente, em anemia hemol\u00edtica de vari\u00e1veis graus entre o moderado e o acentuado, geralmente associados \u00e0 reticulocitose. Morfologicamente observam-se as presen\u00e7as de esfer\u00f3citos, eritr\u00f3citos com policromasia, alguns, inclusive, contendo  parasitas em diferentes fases de suas evolu\u00e7\u00f5es. A presen\u00e7a de parasitas intraeritrocit\u00e1rios \u00e9 decisivo para o diagn\u00f3stico m\u00e9dico. Altera\u00e7\u00f5es leucocit\u00e1rias e plaquet\u00e1rias diretamente associadas \u00e0s essas infec\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito raras. Por outro lado, as infec\u00e7\u00f5es parasit\u00e1rias por leishmanias contagiam a medula \u00f3ssea, f\u00edgado e linfonodos. Especialmente na medula \u00f3ssea, as leishmanias se apresentam em expressiva quantidade e interferem no desenvolvimento da hematog\u00eanese, causando leucopenia com neutropenia  al\u00e9m da anemia e plaquetopenia. Por fim, as infec\u00e7\u00f5es parasit\u00e1rias intestinais, cr\u00f4nicas e cumulativas, s\u00e3o causas de anemia ferropriva  com variados graus de intensidades, leucocitoses discretas a moderadas \u00e0s custas de eosinofilias, e tamb\u00e9m plaquetoses. Pesquisas cient\u00edficas mostram que as les\u00f5es na mucosa intestinais quando extensas exigem a\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas de hemostasia e coagula\u00e7\u00e3o em focos de infe\u00e7\u00f5es disseminados ao longo do trato intestinal afetado. Plaquetas s\u00e3o estimuladas a serem produzidas e tamb\u00e9m s\u00e3o consumidas na hemostasia prim\u00e1ria, e na sequ\u00eancia, ocorre a coagula\u00e7\u00e3o do sangue e a fibrin\u00f3lise nos focos dessas infec\u00e7\u00f5es. Eosin\u00f3filos s\u00e3o estimulados a serem produzidos para participarem, juntamente com mon\u00f3citos, da fagocitose dos restos de fibrina oriundos da fibrin\u00f3lise. Dessa forma, justificam-se as plaquetoses n\u00e3o muito intensas e as eosinofilias que podem chegar a 50% dos leuc\u00f3citos em alguns casos.<br \/>\n<br \/>\n<b>2) Infec\u00e7\u00f5es bacterianas,<\/b> inicialmente ser\u00e3o dados destaques \u00e0quelas causadas por bact\u00e9rias gram positivas (estreptococos piogenes e pneumonia, estafilococos aureos, micobacterias, corinebacteria difteria, etc.). Esses pat\u00f3genos induzem, na maioria das vezes, as leucocitoses agudas motivadas por aumento do n\u00famero de neutr\u00f3filos em valores relativos (%) e absolutos (\/mm3). Dependendo da gravidade da infec\u00e7\u00e3o, a medula se torna hiperpl\u00e1sica para a linhagem de neutr\u00f3filos e libera neutr\u00f3filos segmentados, ou maduros, em grandes concentra\u00e7\u00f5es. Caso as bact\u00e9rias infectantes apresentam-se resistentes \u00e0s defesas imunol\u00f3gicas do paciente, a maioria dos neutr\u00f3filos maduros circulantes morrem naturalmente, pois seu tempo de vida m\u00e9dia \u00e9 curto (oito horas a quatro dias), ou nas a\u00e7\u00f5es antibacterianas.  Nessas situa\u00e7\u00f5es, a medula \u00f3ssea libera o seu estoque de neutr\u00f3filos maduros, quase  se  esgotando dessas c\u00e9lulas. Na vig\u00eancia da continuidade da infec\u00e7\u00e3o deste exemplo, a medula \u00f3ssea passa a liberar grandes contingentes de neutr\u00f3filos jovens, notadamente os bast\u00f5es. A presen\u00e7a de neutr\u00f3filos bast\u00f5es em n\u00famero superior ao da normalidade \u00e9 denominada por desvio \u00e0 esquerda.  Nos estados cl\u00ednicos de infec\u00e7\u00f5es resistentes \u00e0s defesas imunol\u00f3gicas, a medula \u00f3ssea pode, inclusive, liberar neutr\u00f3filos ainda mais jovens, como os metamiel\u00f3citos e miel\u00f3citos. Na fase aguda da infec\u00e7\u00e3o os macr\u00f3fagos passam a participarem da fagocitose das bact\u00e9rias agressoras e, por conta disso, emitem intensas sinaliza\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas atrav\u00e9s de  interleucinas (IL-1 e IL-3). Essas sinaliza\u00e7\u00f5es exercem press\u00f5es descontroladas nas c\u00e9lulas progenitoras, ou c\u00e9lulas tronco, da linhagem granuloc\u00edtica de neutr\u00f3filos, fato  conhecido por estresse medular. O reflexo mais evidente desse estresse  \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de eosin\u00f3filos e a consequente diminui\u00e7\u00e3o da sua libera\u00e7\u00e3o para o sangue perif\u00e9rico. Por essa raz\u00e3o pode ocorrer a aus\u00eancia desta c\u00e9lula na contagem espec\u00edfica de 100 a 200 leuc\u00f3citos. Assim, a aus\u00eancia de eosin\u00f3filos \u00e9 quase sempre indicativa de maior gravidade cl\u00ednica da infec\u00e7\u00e3o bacteriana. Por outro lado, infec\u00e7\u00f5es causadas por bact\u00e9rias gram negativas (enterobact\u00e9rias, neiss\u00e9rias, pseud\u00f4monas, rickt\u00e9cias, legionelas, etc.) liberam excessivas quantidades de toxinas nos tecidos. Essas toxinas s\u00e3o produtos qu\u00edmicos que al\u00e9m de atra\u00edrem leuc\u00f3citos (quimiotaxia positiva) para o local da infe\u00e7\u00e3o, promovem, tamb\u00e9m, um afrouxamento da matriz extracelular (tecido conjuntivo, fibroblastos, adip\u00f3citos e c\u00e9lulas endoteliais) que facilita ainda mais o deslocamento de neutr\u00f3filos do sangue circulante para o foco infeccioso. Portanto, nessas infec\u00e7\u00f5es por bact\u00e9rias gram negativas n\u00e3o \u00e9 incomum a ocorr\u00eancia de contagens diminu\u00eddas de leuc\u00f3citos ou leucopenias, associadas, inclusive, com desvio \u00e0 esquerda em valores relativos. Um fato importante que deve ser salientado s\u00e3o as mudan\u00e7as radicais dos valores leucocit\u00e1rios em menos de 24 horas da vig\u00eancia de alguns estados infecciosos por bact\u00e9rias, quer sejam gram positiva ou gram negativa. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de infec\u00e7\u00f5es por bacterias gram positivas que valores de 30 mil leuc\u00f3citos diminuem abruptamente para 8 mil leuc\u00f3citos num intervalo de, por exemplo, dez horas. Fatos assim podem ocorrem por interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica (antibioticoterapia) ou por esgotamento das reservas leucocit\u00e1rias \u2013 neste caso um mal sinal de progn\u00f3stico da doen\u00e7a. Da mesma forma, nas infec\u00e7\u00f5es por bact\u00e9rias gram negativas, com leucopenia e neutropenia, esses valores podem alterar de leucopenia para discretas leucocitoses, ap\u00f3s interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Por fim, as avalia\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas principalmente de neutr\u00f3filos, com destaques principalmente para as granula\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas e vacuoliza\u00e7\u00f5es, devem ser relatadas, inclusive com avalia\u00e7\u00f5es semi-quantitativas, pois suas presen\u00e7as podem estar relacionadas a\u00e7\u00f5es de bact\u00e9rias supurativas, entre outras causas. A figura abaixo resume uma suposi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica das fases de uma infec\u00e7\u00e3o bacteriana aguda relacionada com varia\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas do leucograma.<br \/>\n<\/p>\n<p><center><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ciencianews.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/img_blog.jpg\" alt=\"img_blog\" width=\"600\" height=\"461\"\/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><\/p>\n<p><b>3) Infec\u00e7\u00f5es virais,<\/b> inicialmente destacarei  o v\u00edrus da influenza ou da gripe, as famosas viroses. Esse v\u00edrus apresentam facilidades de muta\u00e7\u00f5es  e infectam continuadamente as popula\u00e7\u00f5es humanas, entre outras. Quando as infec\u00e7\u00f5es virais est\u00e3o associadas \u00e0 febre, tremores e calafrios \u00e9 poss\u00edvel observar no hemograma a presen\u00e7a de leucocitose, com valores aumentados de linf\u00f3citos (relativo e absoluto). Excetuando essas situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 mais comum a contagem diminu\u00edda de leuc\u00f3citos (geralmente por volta de 2.500 a 3.500\/mm3), com valores de linf\u00f3citos superiores a 50%. Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel que pessoas infectadas por esses v\u00edrus se apresentam com resultados normais para leuc\u00f3citos, por\u00e9m, associados \u00e0  linfocitose relativa. Outros tipos de  infec\u00e7\u00f5es virais de import\u00e2ncia se devem aos v\u00edrus da dengue (DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4) e da chikungunya (CHIKV). Ambos causam manifesta\u00e7\u00f5es de doen\u00e7as clinicamente parecidas com evolu\u00e7\u00e3o em tr\u00eas fases: aguda, subaguda e cr\u00f4nica. H\u00e1 testes diferenciais para seus diagn\u00f3sticos e acompanhamento cl\u00ednico, mas o hemograma \u00e9 o exame mais solicitado e de muita utilidade no acompanhamento da doen\u00e7a. Nas duas doen\u00e7as ocorrem: plaquetopenia, leucopenia e neutropenia, todas essas altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o maiores  na dengue do que na chikungunya. Somente a linfopenia (<1000\/mm3) \u00e9 maior na chikungunya do que na dengue. Nas infec\u00e7\u00f5es virais, de uma forma geral, as avalia\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas dos linf\u00f3citos s\u00e3o muito importantes, principalmente na constata\u00e7\u00e3o dos linf\u00f3citos at\u00edpicos, o que significa um bom sinal de resist\u00eancia imunol\u00f3gica. Os linf\u00f3citos at\u00edpicos se caracterizam por altera\u00e7\u00f5es de conte\u00fado (linf\u00f3citos B carregados com anticorpos contra os v\u00edrus agressores), ou de receptores de membrana (linf\u00f3citos T CD4 e CD8) que reagem intensamente com fatores de indu\u00e7\u00e3o de sinaliza\u00e7\u00e3o. Os linf\u00f3citos at\u00edpicos geralmente s\u00e3o maiores que os linf\u00f3citos normais, apresentam-se com aumento do volume citoplasm\u00e1tico e s\u00e3o mais basof\u00edlicos. A maioria das pessoas saud\u00e1veis tem  linf\u00f3citos at\u00edpicos motivados por infec\u00e7\u00f5es virais sintom\u00e1ticas ou assintom\u00e1tica que as afetam continuadamente. Pesquisas relatam que pessoas saud\u00e1veis tem at\u00e9 5% de linf\u00f3citos at\u00edpicos entre o total de leuc\u00f3citos contabilizados. Por essa raz\u00e3o, suas presen\u00e7as devem ser anotadas apenas quando o n\u00famero dessas c\u00e9lulas superarem a quantidade de 5%, especificando, assim, o valor encontrado. Outros tipos de viroses, com destaques para a mononucleose infecciosa, envolve n\u00e3o apenas os linf\u00f3citos, mas tamb\u00e9m os mon\u00f3citos. No entanto, os mon\u00f3citos merecem um artigo espec\u00edfico, pois cada vez mais esta c\u00e9lula se mostra como a mais influente na nossa defesa imunol\u00f3gica.\n\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O HEMOGRAMA NAS INFEC\u00c7\u00d5ES Paulo Cesar Naoum, biom\u00e9dico, professor titular pela UNESP e diretor da Academia de Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, SP, Brasil. &nbsp; A an\u00e1lise de um hemograma inclui a leitura das tr\u00eas s\u00e9ries [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"aside","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4347","post","type-post","status-publish","format-aside","hentry","category-sem-categoria","post_format-post-format-aside"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"post-thumbnail":false,"business-hub-blog":false,"business-hub-work":false},"uagb_author_info":{"display_name":"real","author_link":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/author\/real\/"},"uagb_comment_info":3,"uagb_excerpt":"O HEMOGRAMA NAS INFEC\u00c7\u00d5ES Paulo Cesar Naoum, biom\u00e9dico, professor titular pela UNESP e diretor da Academia de Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, SP, Brasil. &nbsp; A an\u00e1lise de um hemograma inclui a leitura das tr\u00eas s\u00e9ries [&hellip;]","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4347"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4353,"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4347\/revisions\/4353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ciencianews.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}