SINALIZAÇÃO CELULAR E IMUNOLOGIA MOLECULAR NA CLÍNICA E NO LABORATÓRIO

Prof. Dr. Paulo Cesar Naoum
Diretor da Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, SP.

FOTO DO ARTIGO SINALIZACAO

O vírus HIV, apesar de toda a sua patogenicidade, fez com que a biociência mudasse completamente de curso a partir dos anos 80 do século passado. O desnudamento tecnológico e científico desse vírus abriu fronteiras em duas grandes áreas, a imunologia molecular e a sinalização celular. O maior beneficiário desse progresso é o entendimento de como funcionam as células tumorais em diversos tipos de câncer. Os recentes sucessos no uso de anticorpos monoclonais de altas especificidades como terapias contra vários tipos de câncer alavanca a imunologia molecular como um dos campos mais promissores para os próximos 10 a 20 anos em ciências biomédicas. Por outro lado, para entender de fato como esses anticorpos atuam nas células tumorais, é preciso aprofundar com intensidade dos conhecimentos sobre receptores celulares e vias de sinalização. Os receptores celulares mais conhecidos e, portanto, passíveis de bloqueios terapêuticos são o EGFR, HER2, VEGF, CTLA4, CD 20, CD 30, CD 33 e CD 52. Todos esses receptores foram molecularmente identificados e, por isso, a bioengenharia foi capaz de produzir anticorpos monoclonais de alta especificidade para bloquear suas expressões bioquímicas que desencadeiam as vias de sinalização da célula tumoral. O bloqueio dessas sinalizações tem sido muito eficiente contra o desenvolvimento dos cânceres de cólon, cabeça, pescoço, mama, gástrico, pulmão, rim, glioblastoma, leucemia linfocítica crônica, linfoma folicular de células B, linfoma de Hodgkin e leucemia mielóide aguda. As sinalizações quando anormais, alteram os controles da proliferação e diferenciação celular, podendo, inclusive, tornar as células imortais. É importante saber que as vias de sinalização envolvem cerca de 800 a 1000 proteínas e enzimas diferentes, que estão em atividades dentro de cada célula nucleada do nosso organismo. Mas tal qual ocorre numa população de qualquer cidade que conhecemos apenas alguns ou algumas pessoas se destacam. Da mesma forma ocorre nas nossas células.

Entre esse número enorme de proteínas e enzimas há cinco “moléculas famosas”: as quinases, as proteínas RAS, a proteína P53, as Caspases e a proteína MYC. Ao conhecermos a biologia molecular de seus genes e os processos bioquímicos de suas moléculas, a ciência e tecnologia aplicáveis aos diagnósticos e tratamentos dos diversos tipos de câncer mudarão completamente a condução dessas e outras doenças moleculares. Nesse momento é importante estudar e divulgar esses conhecimentos, pois os médicos precisarão entender a linguagem molecular das doenças e os laboratórios deverão respaldar com análises moleculares específicas para cada tipo de suspeita clínica proposto pela equipe médica.

Essas mudanças certamente vão necessitar de profissionais que entendem de sinalização celular, análise molecular e fisiopatologia molecular da célula.