O JEJUM EM EXAMES DE SANGUE
Paulo Cesar Naoum. Biomédico. Professor Titular pela Unesp. Diretor da Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, SP. Ex- assessor científico da OMS.

 

A necessidade do jejum para exames de sangue, notadamente testes hematológicos, bioquímicos, hormonais e imunológicos, foram comprovados cientificamente por milhares de artigos publicados nos melhores periódicos de divulgação das respectivas áreas do conhecimento. Antes de considerarmos qualquer posição, contra ou a favor, é preciso refletir que todos os padrões de análises sanguíneas, disponíveis atualmente para laboratórios, foram estabelecidos por meio de avaliações em pessoas sadias com jejum de oito a doze horas. Esses valores quantificados em centenas de componentes do sangue humano estabeleceram as normas que regem as bases das condutas médicas para pacientes com diversos tipos de patologias. Alimentos de qualquer natureza têm componentes que interferem na viscosidade e na turvação do sangue. As gorduras, por exemplo, podem obstruir receptores celulares, envolver moléculas proteicas, enzimáticas ou hormonais, e também pode afetar o desempenho das células imunológicas e a contagem das células do sangue. Entretanto, algumas sociedades representativas de especialidades médicas tem propagado através dos meios de comunicação a não necessidade do jejum, o jejum-free. Destacam que o jejum-free não afeta as dosagens dos principais marcadores orgânicos. Entretanto, esse tipo de informação carece de avaliações que as comprovam cientificamente e compromete a interpretação médica que distingue o resultado normal em relação ao alterado. As avaliações científicas de que dispõe os formuladores do jejum-free são fundamentadas em testes estatísticos comerciais, quais sejam, aqueles adaptados para a hipótese desejada, muitos dos quais tem sido usados em algumas dissertações de mestrado e teses de doutorado, que prejudicam suas credibilidades. Da mesma forma há de se considerar a guerra mercadológica entre as empresas que comercializam equipamentos para avaliações de componentes do sangue humano. Algumas dessas empresas, desconsiderando todos os conceitos científicos estabelecidos por organizações internacionais de referência, entre elas a Organização Mundial da Saúde, oferecem equipamentos que de forma suspeita dispensam o jejum. Destacam, assim, a vantagem tecnológica do jejum-free para o lançamento de determinada máquina. Por fim, merece veemente repúdio os laboratórios que oferecem os benefícios questionáveis do jejum-free para seus clientes, com o objetivo de agrada-los e de conquistar suas fidelidades. Experimente, por exemplo, fazer um teste de protrombina numa mesma pessoa em jejum e, em seguida, repetir a dosagem pós-prandial (jejum-free). O resultado será absurdo e poderá colocar em risco a saúde da pessoa analisada. Nesse contexto a minha indagação é saber por que algumas sociedades representativas de especialidades médicas sugerem a seus associados que dispensem os pacientes do jejum? Em que conceitos científicos as empresas de equipamentos mágicos se baseiam na produção de resultados laboratoriais de amostras de sangue coletadas sem jejum? Os defensores do jejum-free teriam a capacidade para estabelecer quais os tipos de alimentos e a quantidade que os mesmos deveriam ser ingeridos antes de encaminha-los para terem o colesterol, a glicose ou gamaGT dosificados, por exemplo? Você acreditaria nesses resultados? O que você pensa a respeito?

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